15 de Agosto de 2006 Gazeta Mercantil | InvestNews | JB
 
     
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A alma do negócio, by Mirna Grzich


Inconformado, John Renesch diz que é possível mudar as coisas e cita Luther King: "Em tempos de crise, ficar em silêncio é traição"

 

ROGÉRIO MONTENGROJohn Renesch é um bem-sucedido empresário americano de 69 anos que, a partir da década de 90, se transformou num filósofo do mundo empresarial. Sobre ele diz Michael Ray, professor de Stanford e autor do livro O Novo Paradigma nos Negócios: "John Renesch tornou-se o principal observador do que é, em escala mundial, a transformação mais radical na história deste planeta".

Essa transformação é uma mudança de modelo na consciência das organizações, a partir de suas lideranças. Um futuro onde a comunidade empresarial vai liderar uma revolução na consciência, servindo à sociedade com recursos e medidas que afirmem a vida, que sejam sustentáveis, humanistas e responsáveis. Palestrante do congresso do Instituto Ethos, realizado em São Paulo, Renesch vê como sua missão informar, inspirar e conectar pessoas que têm uma nova perspectiva do mundo dos negócios. Foi editor da newsletter News Leaders, em San Francisco, nos anos 90. Ler o que os outros líderes pensam e falam, nos livros de Renesch mostra a muitos executivos que combinam capitalismo e idealismo na sua maneira de agir que eles não estão sozinhos. Não são poucos os empresários que estão preocupados com a direção que as coisas estão tomando, com a qualidade de vida, as pressões da sociedade, o ritmo da própria vida. Não é à toa que o próximo livro de Renesch, ainda em elaboração, chama-se "O Novo Ser Humano".

Qual é o momento das organizações na sociedade hoje?
Estamos no meio de uma competição - de um lado, um número crescente de pessoas que têm interesse individual em desenvolver a consciência, viver uma espiritualidade não ligada a religiões e trabalhar dentro de uma empresa guiada por valores humanos. Ao mesmo tempo, os modelos econômicos estão cada vez mais entrevados no que chamamos de fundamentalismos. De um lado, as coisas ficam piores, mas de outro há muita esperança. É o que coloco no início do meu livro Um Futuro Melhor, o símbolo chinês da crise, que é perigo e oportunidade. Enquanto mais pessoas se tornam conscientes e querem agir dentro desse novo parâmetro de consciência, os sistemas onde essas pessoas estão imersas se tornam mais e mais disfuncionais. A crise ocorre nas dinâmicas que nós mesmos criamos. A maioria dos sistemas, pelo menos no meu país, não funciona, ou seja, trabalha muito abaixo da qualidade. Nós criamos os sistemas quase inconscientemente, e agora temos monstros com os quais não sabemos lidar.

Precisamos lembrar que nós é que criamos esses sistemas e agora eles se tornaram nossos senhores

Mas já não perdemos o controle?
Na minha opinião, a situação ainda não está fora de controle, mas mesmo se estivesse perto disso, por que não tentar? O que esquecemos é que os sistemas de saúde, educacional, legal, econômico e o sistema político - o que mais gostamos de criticar - foram criados pela nossa sociedade, portanto, por nós mesmos. Mas parece que caímos num sono profundo, e precisamos acordar porque o que era para nos servir passou a ser o nosso mestre. E reclamamos dos líderes políticos e empresariais, dizendo que o sistema está fora de controle e não podemos fazer nada. Nós podemos mudar isso e temos o poder de mudar as coisas por meio de um recurso chamado legitimidade. Essa é uma lição que aprendi de Willis Harman, o grande cientista social e homem de negócios, fundador da World Business Academy, nos anos 90. Damos legitimidade a pessoas e sistemas por meio do nosso silêncio, apatia, e lhes conferimos poder, nosso poder. Se você faz uma pesquisa com milhões de pessoas, e elas não estão satisfeitas com uma situação, mas não tomam nenhuma atitude, ficando em silêncio. . . Isso me faz recordar uma frase de Martin Luther King:"Em tempos de crise, ficar em silêncio é uma traição".

Você pode dar alguns exemplos de como uma situação instaurada pode perder a legitimidade?
A escravidão, nos Estados Unidos, por exemplo. Quando Abraham Lincon assinou o decreto, o conceito de escravidão já não era admissível pela sociedade americana há mais de trinta anos. Sim, continuou o preconceito, mas havia acontecido uma imensa mobilização do movimento abolicionista para a mudança daquela situação. Outro exemplo que gosto é o do muro de Berlim. Até o dia anterior, os soldados teriam metralhado aquelas pessoas que começaram a atravessar e a desmantelar o muro. Mas naquele dia, e eu tenho fotos daquele momento, eles ficaram perplexos, não sabiam o que fazer, sentiam que tudo aquilo tinha perdido a legitimidade, que era um absurdo, então não deram um só tiro.

O que precisa perder a legitimidade neste momento no mundo?
Uma coisa que todas as pessoas sentem que é errado, mas não fazem nada a respeito: a guerra. Não esta guerra, ou aquela, mas o conceito de guerra é uma coisa tão ultrapassada, ainda mais quando temos tanta experiência em resolução de conflitos. Um exemplo disso foi a África do Sul, em 1994. O processo de reconciliação foi difícil, eles teriam todos os motivos para se engajar numa guerra civil, havia muito ódio, abuso e ressentimento. Conseguiram curar as feridas, e não viveram uma guerra. Isso foi devido à liderança do Arcebispo Tutu e Nelson Mandela. Os países "civilizados"continuam usando o modelo vingativo, e se você perguntar a todas as pessoas aqui presentes se esse modelo funciona elas dirão que não. Mas por que não fazem nada a respeito? Existem tantos problemas mundiais resolvidos na base da vingança, como no caso dos Bálcãs, e o que acontece é que o vencedor domina o vencido, e a coisa fica latente por séculos, até a próxima oportunidade.

Muitas organizações podem compreender a questão ambiental, responsabilidade social, mas, quando encontram a palavra espiritual, se perguntam: O que significa isso?
Quando as pessoas sentem um conflito interior com o jeito que as coisas são, elas podem se dedicar a saber mais sobre si mesmas, entender o mundo sob um outro ponto de vista. Por isso é importante prestar atenção a todos os sistemas aos quais estamos atados, como um Gulliver. Se você ignora isso, não vê essas cordas invisíveis. Quando nos conhecemos, e tomamos consciência do sistema onde estamos inseridos, começamos a nos preocupar em "fazer a coisa certa". Mais e mais pessoas têm essas epifanias, trazendo essa consciência para o local de trabalho. Mas só podemos ser agentes de mudança se estivermos interiormente transformados.

 
Edição 135 - 7/7/2006
 
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